Reclusos do tempo

Saí à rua. A vila estava deserta, e não, não encontrei "o teu nome escrito em toda a parte".
Agora estamos fechados, circunscritos às quatro paredes das nossas casas, onde o tempo não passa mas a vida corre.
Em trabalho, a estudar ou a fazer aquilo que não teríamos tempo se não fosse agora a nossa casa, o nosso espaço de obrigação, fazemos de tudo para que tudo fique rapidamente bem.
Agora somos reclusos na nossa própria casa. Em tempos poder-se-ia dizer que estamos em prisão domiciliária, agora, estamos a ser agentes de saúde pública.
Sorte daqueles que têm um jardim onde respirar a primavera, mesmo que ela não tenha trazido os raios de sol e, em vez disso, o frio da neve que se vai acumulando no Montemuro e, quiçá, na Freita.
Agora (re)encontramos amigos e família, com quem não falávamos por não "termos tempo", dizíamos.
Agora (re)descobrimos a importância do estar presente fisicamente, de um ombro amigo e do silencio de uma sala cheia em vez do barulho de uma sala vazia.
Agora caminhamos todos na mesma direção (ainda que num raio menor de deslocação). Caminhamos sozinhos e à nossa velocidade.
Certamente, e contradizendo Ornatos, o mundo não acaba amanhã, porque eu tenho "tantos planos pra depois!"