Reclusos do tempo

30-03-2020

Saí à rua. A vila estava deserta, e não, não encontrei "o teu nome escrito em toda a parte".

Agora estamos fechados, circunscritos às quatro paredes das nossas casas, onde o tempo não passa mas a vida corre.

Em trabalho, a estudar ou a fazer aquilo que não teríamos tempo se não fosse agora a nossa casa, o nosso espaço de obrigação, fazemos de tudo para que tudo fique rapidamente bem.

Agora somos reclusos na nossa própria casa. Em tempos poder-se-ia dizer que estamos em prisão domiciliária, agora, estamos a ser agentes de saúde pública.

Sorte daqueles que têm um jardim onde respirar a primavera, mesmo que ela não tenha trazido os raios de sol e, em vez disso, o frio da neve que se vai acumulando no Montemuro e, quiçá, na Freita.

Agora (re)encontramos amigos e família, com quem não falávamos por não "termos tempo", dizíamos.

Agora (re)descobrimos a importância do estar presente fisicamente, de um ombro amigo e do silencio de uma sala cheia em vez do barulho de uma sala vazia.

Agora caminhamos todos na mesma direção (ainda que num raio menor de deslocação). Caminhamos sozinhos e à nossa velocidade.

Certamente, e contradizendo Ornatos, o mundo não acaba amanhã, porque eu tenho "tantos planos pra depois!"

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