Pompeu: vizinhança e proximidade
"Ir às compras" nos dias de hoje tem uma conotação completamente diferente daquela que existia há 20 ou 30 anos. Se agora os hipermercados são um local onde se encontra de tudo a todos os preços, as mercearias são cada vez mais o parente pobre do setor do comércio, embora desempenhem um papel de extrema importância por prestar um serviço de "vizinhança".
Contudo, existem mercearias que se souberam adaptar à nova realidade da sociedade de consumo, melhorando a variedade de preços e produtos e mudando a sua forma de servir os clientes.
Poucos são os arouquenses que não sabem onde fica o "Mini - mercado Pompeu" no lugar de Santo António, freguesia de Santa Eulália. Poucos conhecem, no entanto, a história por trás deste estabelecimento que prima pela excelência de um serviço de proximidade.
A história deste estabelecimento começou pelas mãos de Joaquim da Conceição Rocha, filho do homem que deu "nome" a todas as gerações que se seguiram, Pompeu da Conceição.
Pompeu era funileiro e tinha uma pequena oficina onde trabalhava com a "folha - de-Flandres" no fabrico de inúmeros utensílios domésticos, como é o caso de regadores ou formas para bolos, e no conserto de tantos outros. Dedicou a sua vida à arte de fazer e fazer bem.
Quando o mundo vivia a Segunda Guerra Mundial e Portugal continuava mergulhado na pobreza e no esquecimento, o filho do Sr. Pompeu, Joaquim, decidiu abrir, no ano de 1942, uma mercearia, paredes meias com a oficina do seu pai, na casa de cor verde a poucos metros da atual localização. Nesta loja vendia-se apenas arroz, massa, café, açúcar, azeite e sabão, juntando-se mais tarde a venda de petróleo por ser uma necessidade perene, numa altura em que se vivia "na escuridão" do Estado Novo e a região era pouca eletrificada, sendo necessária a utilização de lampiões.
Ao lado da mercearia, Joaquim tinha a funcionar uma tasca, onde os homens se reuniam a partir das 6h30 da manhã para beber "bagaço", antes de partirem para mais um dia de trabalho. Nessa altura, as mulheres eram donas de casa e não lhes era permitida a entrada em locais frequentados maioritariamente por homens, sendo portanto, rara a presença de uma mulher na tasca, ficando estas circunscritas à mercearia.
Reinaldo Rocha "Pompeu", atual proprietário do negócio, recorda os domingos em que as pessoas vinham assistir à eucaristia, oriundas um pouco de toda a freguesia, numa época em que a fé era refúgio para a pobreza.
Como a missa era cedo e a mercearia tinha uma localização central, os fregueses aproveitavam a deslocação para comprarem os bens que precisavam, frisando que a venda era feita avulso e os produtos eram pesados e "embrulhados" em "cartuchos" numa espécie de papel mata - borrão.
Cada família tinha uma caderneta que levava sempre que ia às compras e onde eram registados os produtos adquiridos que depois eram somados para pagamento ao fim de cada semana ou ao fim de cada mês.
A mercearia foi-se adaptando aos novos tempos, mantendo a sua localização até março de 1999, data em que mudou para as instalações e para o nome atual, "Mini - mercado Pompeu".
Para a história e para a memória fica a audácia de quem sobreviveu ao passar dos anos, resistindo à mudança, mudando e sendo próximo e fiel aos seus clientes. E isso, o "Pompeu" conseguiu fazer com distinção.
