História de um Mosteiro 2019
Anunciava o pregoeiro, montado no seu cavalo, que as festas na vila de Arouca tinham início ao cair da noite de 19 de julho. Nesse dia, a vila vestia-se a rigor para celebrar o regresso ao passado. E assim foi.
A beatificação de Dona Mafalda foi o motivo para tanta azáfama nas principais ruas que ladeiam o Mosteiro. O povo uniu-se para participar no Grandioso Cortejo da Beatificação e em silêncio, partilharam a mesma fé que as mais altas individualidades do reino, que vieram a Arouca nestes dias festivos.
O Mosteiro de Arouca abriu as portas ao séc. XVIII. No interior, a vida aconteceu carregada de fé e devoção. Nos claustros, ouviu-se o cair da água na fonte, símbolo da passagem do tempo. Na cozinha, preparam-se as refeições e na botica as mezinhas pareciam ser a única solução para a cura das monjas mais débeis.
Na enfermaria, suspeitou-se de um surto de cólera e foi notório o sofrimento das monjas que, em agonia, suplicaram por auxílio divino.
Nos locutórios, as monjas receberam os seus familiares para diluir as saudades dos que deixaram cá fora e a paz do local foi apenas quebrada pelo corrupio das moças que assearam os espaços enquanto ansiavam uma vida melhor.
Cá fora, Frei Simão de Vasconcelos, frade guerrilheiro, foi preso sob o olhar atento do povo e das monjas que gritavam por D. Pedro e por D. Miguel e a Capela da Misericórdia foi palco para o funeral de um nobre e para o casamento da filha de um lavrador rico.
Na casa do Bêco foi abandonada uma criança na roda e na Praça, as bandas entram em despique.
Na noite do incêndio no Mosteiro, o pregoeiro falava ao povo ali presente, dizendo que havia fogo no terreiro, fruto do espetáculo dos saltimbancos, não sabendo este que também no Mosteiro lavravam altas labaredas, para suplício das monjas. O povo acorreu ao Mosteiro para salvar as monjas e o espólio e, por milagre, surge no alto, Santa Mafalda, numa auréola branca, e o incendio extinguiu-se.
Carlos Barbosa é "o pregoeiro que anuncia a boa nova", tal como se apresenta aos forasteiros. Carlos participa na Recriação Histórica há sete anos e embora pese o facto de pertencer ao Grupo Cultural e Recreativo de Rossas, onde faz teatro regularmente, Carlos participa neste evento, pelo "gosto pela representação", acrescentando que o convívio entre todos os participantes e o querer recriar a história de Arouca são também fatores determinantes para a sua participação. Além de pregoeiro, Carlos é também ator de cordel, onde, com a ajuda dos seus colegas conta as lendas de Arouca "em forma de teatro de qualidade".
O pregoeiro é uma figura central de toda a trama, sendo ele o responsável por transmitir ao povo, o que figura e o que visita, tudo o que se está a passar. Não sendo possível dissociar o pregoeiro, da figura do Carlos Barbosa, honra lhe seja feita pelo trabalho exímio que desenvolve.
No interior do mosteiro são muitas as arouquenses que "vestem o hábito" para recriar o tempo em que a clausura era uma realidade. Lúcia Azevedo participou na Recriação Histórica pela terceira vez e fá-lo porque sempre gostou de teatro, embora nunca se tenha envolvido num grupo de teatro, por considerar que lhe faltou a oportunidade, que agora tem com este evento.
Desde de que participa na Recriação Histórica que Lúcia veste o papel de Mestre do Celeiro, tendo este ano sido a responsável pela transmissão da cólera para o interior do mosteiro, uma vez que foi das poucas monjas que tinha contacto com o povo, assolado pela doença. Lúcia afirma que ter que "encarar esta doença, tendo que desmaiar e aparentar convulsões foi uma experiência que evocou o espírito de grupo", realçando a enorme cumplicidade que existe entre todos os figurantes.

A estes, juntam-se tantos e tantas arouquenses que trabalham, que se esforçam para recriar, para sentir e para fazer viver a Arouca do passado, no presente.
Este que é um evento comunitário, que envolve mais de quatrocentos figurantes, cerca de cinquenta associações, requer uma combinação de esforços entre a equipa do município e todas estas pessoas que trabalham de forma abnegada, dispensando o seu tempo e vestindo a rigor, pela valorização da história e das estórias da sua terra, de Arouca.
