Agostinho Silva, o "Guiné"

15-02-2020

As memórias da Guerra Colonial estão ainda muito presentes na vida dos portugueses. Começava há 59 anos uma guerra sem precedentes no continente Africano.

Os portugueses, mergulhados no espírito do Estado Novo, combatiam em África, acreditando (de tantas vezes ouvirem) que estavam a proteger o que era seu, num espírito de nação pluricontinental e multirracial.

Em África protegia-se aquilo que era "nosso" e Portugal, vivendo num regime autoritário e ditatorial, defendia uma teoria fora do tempo histórico e isolava-se da comunidade internacional. "Orgulhosamente sós" apregoava Salazar em novembro de 1965.

Os movimentos de libertação justificavam a sua fúria de guerra com base no princípio inalienável de autodeterminação e independência, num quadro internacional de apoio e incentivo à luta.

A preparação dos combatentes portugueses começava com a recruta, tempo de deixarem as suas casas e as suas famílias, num cenário que tinha como certo, o fado da ida para a guerra.

A viagem de um jovem até Angola, Guiné ou Moçambique começava assim, muito antes do embarque para a guerra.

Depois da instrução, os jovens iam a casa despedir-se das famílias e regressavam (aqueles que não fugiam sobretudo para França) para dar início à viagem sem saber quando e se se voltavam a ver em terras verdadeiramente lusitanas.

Nos jovens arouquenses a realidade era a mesma, partiam para a guerra, embarcando no Cais da Rocha ou no Cais de Alcântara em cargueiros ou paquetes, sendo que a viagem para a Guiné demoraria 5 dias, para Angola 14 e para moçambique 20.

Agostinho Silva é natural de Covelo de Paivô e tem atualmente 74 anos. Vive desde há longos anos em Moldes e é conhecido como "Guiné". Ganhou a alcunha em tempos de guerra naquela que terá sido, sem dúvida, uma experiência dramática.

Agostinho esteve em África 5 anos. As suas memórias de guerra são fortes e arrepiantes. Foi recebido com um tiro logo que desembarcou, as ordens do Alto Comando eram para "matar, varrer tudo o que aparecer" e quando se preparava para voltar a Portugal vive a pior das experiências, o cativeiro.

No mato, Agostinho lembra que passavam "dias e dias com o cantil de água e a ração de combate no bornal. Leite em bisnagas, sardinha em conserva, uma barrita de queijo dentro de uma lata, um bocadinho de marmelada dentro de uma lata pequenina." Recorda ainda que levavam "carregadores de balas, levamos as cartucheiras cheias, granadas, uma faca de mato com serrilha na ponta."

Em Portugal tinha deixado a família. Não deixou mulher nem namorada porque era sua convicção que antes "tinha que cumprir o seu dever".

Catorze dias antes do seu regresso a Portugal, guardado em segredo para que não corresse mal, segundo lhes diziam, Agostinho e a sua secção foram vítimas de uma cilada, "um preto era guia deles e foi o que nos incriminou, escaparam dois ou três todos queimados e estilhaçados", conta.

Embora ele e um colega tenham tentado resistir enquanto tinham munições, era um "jogo" desigual de dois para setenta, tendo sido capturados e ficado em cativeiro "trinta e tal meses".

A captura feita na Guiné fê-los andar vários dias de mãos algemadas até à Guiné - Conacri. Lá, depois de um penoso caminho a pé, com cerca de 500km, sem comer nem beber, parando só para dormir, foram apresentados a Amílcar Cabral do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

Agostinho lembra o tempo em que esteve em cativeiro, usado como "moeda de troca". Conta que esteve preso quase três anos "sem ver sol, sem ver nada". Apenas mais tarde, uma lei da Cruz Vermelha Internacional obrigava a "pôr fora o prisioneiro de guerra uma hora por dia. As primeiras vezes que saímos da prisão nós não víamos nada, íamos uns contra os outros" - memora.

Num clima de repressão, Guiné assume que lhe "passava pela cabeça que aquilo deveria ter um fim. Ou eramos mortos, ou eramos mandados embora", acrescentando que "o treino de guerra que nos davam cá servia pouco. Diziam que se fossemos apanhados para nos matarmos primeiro para não sermos mortos por eles". Agostinho conta que em pensamento sabia que nunca se mataria.

O cativeiro duplicou o que seria o tempo normal em África. Em Arouca, a família e os amigos de Agostinho Silva acreditavam que já não se encontrasse com vida, fruto do tempo em que não tiveram notícias dele e celebraram-lhe a missa de sétimo dia.

Para alimentar a propaganda de um país forte e independente, mesmo em cativeiro, eram visitados pela "Voz da Liberdade" rádio clandestina, que aproximava os soldados das famílias. Numa dessas emissões, Manuel Esteves, amigo de Agostinho, em Arouca, reconheceu a voz de Guiné e avisou a irmã que este estava vivo. No entanto, é com tristeza que Agostinho lembra que o seu pai morreu sem saber que ele estava vivo.

"Apanhei o paludismo, tive febre-amarela, hepatite. Depois um preto é que me curou com água de papaia. Cozia a papaia e dava-me aquela água e dizia: - ó branco eu vou-te curar. E eu ensinava-lhe umas letras. Para aprender uma letra era preciso um mês. Falavam o crioulo e o francês".

Uma revolução na Guiné levou à libertação dos prisioneiros de guerra e Agostinho recorda que "nós vínhamos magrinhos e todos sujos. Parámos cerca de uma semana nas Canárias para recuperarmos. Viemos para Lisboa e deram-nos um dinheirito para a viagem de comboio e comprar umas roupas".

Chegou a Arouca no dia 5 de dezembro, dia de feira, no ano de 1970.

Quando chegou a Arouca não esquece o olhar "daqueles velhotes" que tinham ido à sua missa de sétimo dia, incrédulos com o que viam.

A crença e a fé dos Homens fizeram o fim de Guiné, perpetuando a sua memória numa missa de sétimo dia. A sua força anímica e a sua resiliência fazem-no estar hoje a contar a sua história.

"Esta é a madrugada que eu esperava", escreveu Sophia um dia, referindo-se ao dia que marcou o fim da ditadura, dando inicio ao processo de descolonização.

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